3. BRASIL 27.2.13

1. A GUERREIRA E OS FANFARRES
2. CAMPANHA PRECOCE
3. 2005, O ANO QUE NO EXISTIU
4.  ESPERA DA PUNIO

1. A GUERREIRA E OS FANFARRES
A visita da cubana Yoani Snchez revela muito sobre o Brasil e alguns brasileiros: ela enfrenta a ditadura para pedir democracia, enquanto eles usam a democracia para defender a ditadura.
ROBSON BONIN

	A dissidente cubana Yoani Snchez encontrou no Brasil uma raridade, jovens manipulados para defender uma ditadura. Viu patetas fantasiados de Che Guevara tentando, aos berros e  fora, impedi-la de falar. A reao de Yoani foi uma aula de poltica. Ela pouco se importou com o contedo do alarido. Elogiou a liberdade de expresso existente no Brasil. Yoani aprendeu com o sofrimento que o comunismo  uma bobagem inofensiva  o que prende, tortura e mata  a ditadura. Aprendeu a valorizar o exerccio da liberdade de protestar, mesmo quando o alvo  ela prpria. Sua simplicidade assusta os adeptos das tiranias. Moa perigosa essa!

     Perigosssima, a blogueira de prosa mais simples do que encantatria assusta a ditadura cubana e seus seguidores no Brasil simplesmente por expor na internet os fatos bsicos da vida infernal da populao que deveria estar vivendo no paraso comunista no planeta. Cuba foi um experimento da Unio Sovitica feito em uma ilha do Caribe que se manteve enquanto Moscou mandava sua bilionria mesada para Fidel Castro. "O barco afunda. Faz gua por todos os lados", diagnosticou Fidel em 1993, no auge da penria que se instalou em Cuba depois  do desmoronamento do bloco sovitico. Desde ento, o governo cubano foi gastando todo o seu encantamento romntico-revolucionrio, perdendo legitimidade a cada dia, mantendo-se pela hegemonia crescente dos militares no aparelho de poder e pela cultura da delao que faz de cada cidado cubano um espio do seu vizinho. Enfim, o experimento comunista cubano assumiu as feies das ditaduras clssicas em que, em nome de uma nunca alcanada prosperidade coletiva, os tiranos suprimem as mais bsicas liberdades individuais  entre elas, claro, a mais fundamental de todas, a de expresso. Em um ambiente assim, Yoani  um perigo letal para a ditadura. "Venho de um estado onde ter opinio  equivalente  traio", disse ela na Bahia. A turba ignara no ouviu, ensurdecida pelos prprios uivos.
     Em Braslia, alguns parlamentares broncos tentaram constranger a cubana com perguntas sobre suas intenes, a origem dos recursos que bancaram sua viagem. Em So Paulo, a ltima etapa da viagem, a jornalista e blogueira, mesmo sob proteo policial, tentou participar de um debate, mas foi impedida de falar pela claque de liberticidas manipulados pelos dinossauros ideolgicos. Calem Yoani, ela  um perigo!
     O Brasil recebe a visita de polticos, tiranos e pessoas comuns defendendo ideias de vrios matizes, como  natural em qualquer democracia, mas poucos mereceram um tratamento to indecoroso quanto Yoani. Ela  um alento para o povo cubano, uma plantinha que ousou brotar na aridez do fidelismo arcaico. Ser que seus agressores no Brasil pararam para pensar por que em Cuba no existe acesso livre e desimpedido  internet? Por que no existem jornais? Por que Cuba  a nica ilha que no possui comunidades de pescadores? Vamos l. As duas primeiras perguntas tm respostas bvias: o governo tem o controle total da informao. Mas e os pescadores? Por que os cubanos no podem enriquecer sua rao diria de batata com uma protena de peixe? Simplesmente porque, em vez de pescar, eles remariam para longe da ditadura, fugiriam da priso em que so mantidos. Yoani Snchez  to perigosa em Cuba quanto uma canoa a remo. Ela liberta a mente, mostra que o rei est nu.  uma moa perigosa.
     Yoani Snchez, uma mulher de 37 anos, que pesa 55 quilos e no mede mais que 1,62 metro, j foi sequestrada, torturada e acusada de praticar a variante mais grave dos crimes punidos pela ditadura cubana: defender a liberdade. Com um computador velho e a ajuda de voluntrios que recebem seus textos por e-mail e os publicam traduzidos para vinte idiomas, Yoani Snchez rompeu os controles e virou inimiga do regime.
     Uma reportagem de VEJA publicada na semana passada revelou que a perseguio  blogueira no Brasil foi planejada pela embaixada cubana em Braslia e executada por militantes do PT, do PCdoB e da CUT. Mais grave ainda: na reunio em que se tramaram os ataques a Yoani Snchez estava presente um graduado funcionrio do Palcio do Planalto  Ricardo Poppi Martins, assessor do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidncia, Gilberto Carvalho  , que recebeu das mos do embaixador Carlos Zamora Rodrguez um dossi contendo informaes falsas e montagens fotogrficas para denegrir a imagem da jornalista e ainda ouviu do diplomata que agentes iriam espion-la. Aconteceu exatamente o que VEJA disse que ia acontecer. Alimentados pelo dossi distribudo pelo embaixador, os militantes disseminaram na internet o roteiro de dio que ganhou as ruas na forma de cartazes com acusaes patticas contra a dissidente  quase tudo de acordo com o que havia sido planejado. O que no estava no roteiro cubano-petista  que a tramia seria revelada.
     A estratgia de ataque do regime cubano contou com a participao decisiva dos petistas atravs da chamada "RedePT13"  uma organizao virtual montada pelo partido para perfilar blogueiros e usurios de redes sociais alinhados ao petismo. Especializados em perseguir e difamar adversrios do partido, eles so os chamados "militantes virtuais", e integram uma massa invisvel composta de sites e perfis apcrifos na internet. Foi essa turma que, quando recebeu o dossi contra Yoani, passou imediatamente a replic-lo na RedePT13, transformada no brao digital da polcia poltica de Havana. Um despudor intolervel que mereceria a ateno do governo.
     Mas como, se o governo nesse episdio vergonhoso esteve representado pelo Poppi, o servidor do Palcio do Planalto responsvel pelas Novas Mdias? Poppi  um especialista em "ciberguerra", que tem a RedePT13 como instrumento. Ele estava at a semana passada em Cuba, com as despesas pagas pelo governo brasileiro, ministrando seus conhecimentos blicos digitais aos camaradas da ilha. Em nota, o Palcio do Planalto divulgou uma verso fantasiosa do papel do rapaz: ele teria ido  embaixada buscar o visto de viagem.
     Uma vez l, por coincidncia, foi convidado pelo embaixador para participar da reunio junto com mais uns quinze petistas. O bom menino teria ouvido o plano de interveno cubana no Brasil e recebido o CD com o dossi contra Yoani. Mas, cioso de seu dever como alto funcionrio do governo brasileiro, destruiu imediatamente o material ofensivo assim que percebeu do que se tratava. T bom, ento.
     J o chanceler Antonio Patriota se limitou a dizer que no havia tomado conhecimento da conspirao. Como se de fato nada tivesse acontecido, na quinta-feira, enquanto Yoani Snchez era mais uma vez hostilizada em So Paulo, o embaixador Carlos Zamora Rodrguez estava no Palcio do Planalto visitando Marco Aurlio Garcia, assessor de assuntos internacionais do governo. Alguma admoestao pelo comportamento que fere os mais elementares princpios das convenes diplomticas internacionais? No. "Marco Aurlio  um amigo que estava enfermo", explicou o sorridente e despreocupado embaixador cubano. O senador lvaro Dias, do PSDB do Paran, apresentou um requerimento para que os ministros Antonio Patriota e Gilberto Carvalho, alm de Carlos Rodrguez, prestem esclarecimento ao Congresso.
     O PT manteve um conveniente silncio sobre o caso Yoani. Na quarta-feira, militantes do partido agrediram a reprter Daniela Lima, do jornal Folha de S.Paulo, que trabalhava na cobertura do encontro promovido pelo partido para comemorar seus dez anos no poder. Enquanto autoridades se encaminhavam para o salo em que Lula e Dilma discursariam, Daniela, como manda a cartilha da profisso, interessou-se pelo que parecia um protesto dos petistas. Foi recebida com provocaes e xingamentos e agredida fisicamente. Um militante chutou Daniela pelas costas. Tpico desses valentes. A visita de Yoani Snchez ao Brasil acabou ajudando a explicitar um pouco mais o fato de que para certas correntes petistas a existncia da imprensa livre , em si, insuportvel. A imprensa foi importante quando se tratava de mostrar os podres dos governos que precederam a chegada dos petistas ao poder. Agora seu papel  fazer propaganda do governo e saudar os feitos do PT. O jornalismo investigativo, destemido, independente teve seu lugar antes da subida do PT ao mais alto posto da hierarquia poltica do pas. Agora, eles no querem mais ouvir falar disso. O jogo terminou.  at compreensvel que os petistas pensem assim, mas  pattico ver antigas feras do jornalismo investigativo, prontas a qualquer sacrifcio para escancarar malfeitorias dos governos passados, transformadas em cordeirinhos balindo alegremente para os poderosos de planto, sem nenhum apetite para a reportagem reveladora.  at possvel que se movam, mas para tentar, quem sabe, descobrir algo desabonador sobre a dissidente cubana em visita ao Brasil. Afinal, ela  uma moa perigosa que enfrenta a ditadura cubana em favor da democracia, enquanto muitos usaram as liberdades da imprensa sob a democracia para agora terem o direito de bajular ditaduras. 

"ESSE SENADOR  DA CIA"
     O embaixador cubano goza de estranhos privilgios que transcendem em muito a imunidade diplomtica. Alm de ter autorizao para promover reunies polticas, distribuir dossis e espionar adversrios sem ser incomodado, Carlos Zamora Rodrguez tem o poder de patrulhar parlamentares brasileiros. O senador Eduardo Suplicy, do PT de So Paulo, sempre esteve na lista daqueles a quem os cubanos podiam recorrer, os chamados amigos da revoluo  at ele se sensibilizar com o trabalho de Yoani Snchez. Suplicy, havia anos, defendia o direito da blogueira de deixar a ilha, o que o regime comunista no permitia. Chegou a enviar uma carta  embaixada solicitando uma autorizao especial para a jornalista se ausentar do pas. Foi o bastante para transformar o senador em "inimigo da revoluo". E, como todo inimigo da revoluo, o parlamentar foi automaticamente promovido a agente da CIA, a agncia americana de espionagem.
     Ao se aliar  defesa de Yoani Snchez, Suplicy virou persona non grata no regime. "Como  que o PT permite isso? Esse senador  da CIA", esbravejou o embaixador ao recebera carta. A acusao foi ouvida por outro senador da Repblica, Roberto Requio, do PMDB do Paran, que ainda tentou defender o colega: "Se o Suplicy  da CIA, eu tambm sou". Requio tentou, sem sucesso, promover uma reconciliao entre o senador e o embaixador. A revolta de Carlos Zamora contra Suplicy foi parar na cpula do PT, a quem o embaixador se queixou formalmente da postura do senador  inclusive advertindo que o mau comportamento de Suplicy poderia comprometer a boa relao de Havana com o partido. Subserviente, o PT no defendeu o senador. Ao contrrio, comprometeu-se a cerrar fileiras contra a visita da blogueira. Resignado, Suplicy ainda tentou por meses uma audincia com o embaixador para se explicar, mas nunca conseguiu ser recebido. Na semana passada, ao lado de Yoani, ele tambm foi alvo da hostilidade dos manifestantes, muitos deles petistas, que atacaram a blogueira cubana. "Sempre defendi a democracia. Como diz a presidente Dilma,  melhor o barulho da liberdade de expresso do que o silncio da ditadura, e, por isso, vou continuar defendendo a liberdade em Cuba", afirmou ele.

"OS CUBANOS NO SO COMUNISTAS"
Yoani Snchez falou a Duda Teixeira e Branca Nunes, de VEJA, na sexta-feira 22, em So Paulo, no escritrio da Editora Contexto, que publicou seu livro De Cuba, com Carinho.

Por que o governo cubano e os castristas brasileiros tm pavor da senhora? 
Eles temem a palavra, o argumento e o raciocnio lcido dos que esto em Cuba e so crticos do regime, ou tm alguma opinio diferente da do Partido Comunista. O governo simplesmente tem medo de que a comunidade internacional nos escute.

Qual  o poder que a comunidade internacional tem sobre a ditadura cubana? 
A opinio das entidades de direitos humanos  importante para estimular reformas em Cuba. Lamentavelmente, ns, cubanos, estamos presos a um esteretipo. Muita gente em outros pases cr que o nosso povo  totalmente a favor do governo. No somos todos comunistas. No usamos farda verde-oliva. Se a comunidade internacional enxergar a pluralidade que existe entre ns, estaremos mais prximos da mudana.

A senhora disse que os slogans dos manifestantes brasileiros j no se escutam em Cuba. Qual lhe surpreendeu mais?
"Cuba sim, ianques no", por exemplo. Est fora de moda. Em Cuba no usamos mais a palavra ianque para os americanos. Falamos yuma, que no  pejorativo. Ao contrrio, mostra certo encanto em relao a eles. A propaganda estatal, de ataques aos Estados Unidos e ao imperialismo, criou um sentimento contrrio do esperado. A maioria dos jovens cubanos hoje  fascinada pelos americanos. Eu at acho ruim esse enaltecimento de outro pas, mas  uma realidade.

Em 2007, o Brasil deportou dois boxeadores cubanos que tentavam o exlio. Qual sua opinio sobre isso? 
O governo brasileiro teve um triste papel nesse caso, de cumplicidade. Quando os atletas retornaram, o governo cubano fez um linchamento pblico na imprensa oficial, com vrios insultos. Fidel Castro falou na televiso que um deles foi visto com uma prostituta na praia. Os filhos e a mulher desse homem foram expostos a isso. Foi um episdio bastante lamentvel.

COLABORARAM ADRIANO CEOLIN E RODRIGO RANGEL


2. CAMPANHA PRECOCE
A vinte meses da eleio, a presidente Dilma antecipa o debate eleitoral para conter os movimentos de Lula.  uma deciso que desvia o governo de seu objetivo primordial, que  governar.
OTVIO CABRAL

     No fim da manh de 25 de janeiro deste ano, o carro oficial da Presidncia da Repblica estacionou em uma rua calma do bairro do Ipiranga, em So Paulo. Acompanhada por um assessor e um segurana, a presidente Dilma Rousseff desceu e entrou no Instituto Lula para uma reunio que ela considerava fundamental. Dilma dispensou o staff e se fechou em uma sala com seu antecessor, Luiz Incio Lula da Silva. Foi direta. Queixou-se de que as constantes viagens e entrevistas de Lula davam a impresso de que ele queria voltar  Presidncia. E que essa interpretao ganhara fora com a inteno do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), de disputar a eleio presidencial. Aliados do ex-presidente estavam espalhando que Eduardo s desistiria para apoiar uma candidatura de Lula, jamais para se aliar  presidente. Dilma perguntou diretamente se Lula tinha pretenses presidenciais. "No sou candidato. Voc  a candidata", respondeu o antecessor. Ela, ento, fez um pedido. Queria que ele declarasse publicamente o que acabara de dizer na sala fechada antes de iniciar uma caravana pelo Brasil, prevista para maro. Sem ter como negar, ele aceitou.
     A declarao foi dada na quarta-feira passada, na comemorao dos dez anos do PT no poder, em So Paulo. Lula atacou seus adversrios do PSDB e anunciou a candidatura de Dilma  reeleio: "Eles podem se preparar, podem se juntar com quem quiserem, porque ns vamos dar como resposta a reeleio da Dilma". O lanamento da candidatura de Dilma a vinte meses da eleio presidencial subverte a lgica da poltica. Normalmente, so os candidatos de oposio que se apressam em divulgar seus projetos e contestar o governante de planto. Foi assim nas seis eleies que aconteceram depois da redemocratizao. Essa busca antecipada pelo voto  ruim, pois desvia o governo de seu objetivo principal, que  governar. Disse o senador mineiro Acio Neves, provvel candidato do PSDB  Presidncia: "No  mais a presidente quem governa. Hoje, quem governa o Brasil  a lgica da reeleio.
     A presidente j vem atuando como candidata desde o incio do ano. Suas aes tm se guiado acima de tudo por essa lgica eleitoral. Na vspera do ato em So Paulo, ela anunciou a ampliao do programa de combate  misria, na presena de governadores e prefeitos. Os dois eventos foram devidamente filmados pela equipe de Joo Santana, o marqueteiro oficial da Repblica. Dilma tem seus motivos para a antecipao. O principal  o fantasma de Lula, que no consegue desencarnar do poder. A presidente e seus estrategistas tm dvida se apenas a declarao ser suficiente para exorcizar o incmodo fantasma. Eles temem que, em momentos de dificuldades para o governo, Lula volte a ser apontado como uma soluo. Para isso, h uma segunda carta na manga, defendida explicitamente por Dilma em reunies de sua equipe poltica: lanar a candidatura de Lula ao governo de So Paulo. Amarrado  misso de derrotar os tucanos em seu principal ninho, o ex-presidente deixaria a sucessora livre para cuidar da reeleio.
     O outro motivo do lanamento antecipado  a diviso na base de apoio de Dilma. A maior ameaa  o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos. Aliado do PT desde 2002, quando apoiou Lula no segundo turno, Campos decidiu ser candidato a presidente, apesar de todas as propostas, apelos e ameaas do PT. Ele foi o nico presidente de partido aliado a faltar ao convescote do PT. Alegou que precisava ir a uma missa de stimo dia e mandou o vice-presidente do PSB para represent-lo. Antes da missa, inaugurou um conjunto habitacional. No dia seguinte, distribuiu dinheiro para obras a todos os prefeitos de Pernambuco.
     "No s sou candidato, como corro at o risco de ganhar", afirmou o governador a um interlocutor na semana passada. Em pblico, ele no repetir a declarao. Insistir na tese de que estar ao lado de Dilma em 2013 e apenas em 2014 decidir se ser candidato. "2014 a gente discute em 2014", costuma repetir. Nos bastidores, porm, ele tem se reunido com polticos e empresrios. D como certa a aliana com o PDT e o PPS  o que diz ser suficiente para ter um bom tempo de TV sem se comprometer com "polticos identificados com o atraso". Tambm afirma j ter a promessa de cinco ou seis empresrios de ponta financiarem sua campanha  s vai querer doaes no atacado, de "poucos e bons colaboradores". Em abril, Campos vai comear a aparecer para o Brasil com os programas de TV do PSB. Os filmetes sero feitos sob medida para cada regio. No Norte e Nordeste, ele vai mostrar sua obra no governo de Pernambuco, que cresceu mais que os outros estados das duas regies. Para o Sul e o Sudeste, falar de tica na poltica e de gesto. Eduardo espera contar com a ajuda de seu tio, o diretor da Globo e de cinema Guel Arrues, tanto na produo dos programas de TV como para costurar o apoio de artistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Governar Pernambuco tambm ficou em segundo plano.
     A estratgia de se mostrar como uma novidade na poltica e atrair o apoio de celebridades  semelhante  de Marina Silva. Terceira colocada na eleio de 2010, ela deixou o Partido Verde e,  na semana passada, deu o primeiro passo para criar seu prprio partido, a Rede Sustentabilidade. O grupo de Marina se reuniu em Braslia para organizar a coleta das 500.000 assinaturas necessrias para que o partido (embora se insista no nome "rede") dispute eleies.
     Percebendo a movimentao acelerada de Dilma, Eduardo e Marina, o tucano Acio Neves tambm teve de assumir sua candidatura. Ele aceitou ocupar a presidncia do PSDB, em maio, cargo que lhe dar mobilidade para percorrer o Brasil mostrando os problemas do governo Dilma e suas propostas para o pas. Na ltima semana, enquanto o PT fazia sua festa, Acio deu uma amostra de sua linha de atuao em um duro discurso de vinte minutos na tribuna do Senado, no qual mostrou os "treze fracassos dos dez anos do PT no poder".
     Mantido esse cenrio, a disputa se antev mais difcil para Dilma do que foi em 2010. Acio deve dominar a votao em Minas Gerais e Eduardo Campos tem potencial no Nordeste  duas regies nas quais o PT vem ganhando as eleies. Para compensar, a presidente dever buscar uma votao melhor no Sul e no Sudeste, principalmente em So Paulo. Mais um motivo que ela aponta para lanar a candidatura de Lula a governador. Um estrangeiro que chegasse ao Brasil na semana passada e acompanhasse o noticirio teria certeza de que a eleio presidencial aconteceria nas prximas semanas. Mas ainda faltam vinte meses. E em vinte meses, na poltica, tudo pode ser reconstrudo.

EM 20 MESES TUDO PODE MUDAR 
Como estava o cenrio poltico no incio do ano anterior s eleies presidenciais [*Os nomes em letras maisculas indicam quem disputou cada eleio]

Em fevereiro de 1988...
 FERNANDO COLLOR, no segundo ano como governador de Alagoas, comeava a ficar conhecido fora do Nordeste
 LEONEL BRIZOLA (PDT) liderava as pesquisas
 LULA (PT) patinava com menos de 10% dos votos
 O PSDB ainda no existia e MRIO COVAS era senador pelo PMDB
... e em novembro de 1989
FERNANDO COLLOR, do PRN, foi eleito presidente, derrotando Lula, Brizola e Covas (do recm-criado PSDB)

Em fevereiro de 1993...
 Itamar Franco (PMDB) era o presidente, em substituio a Fernando Collor, que caiu aps o processo de impeachment
 FERNANDO HENRIQUE (PSDB) era ministro das Relaes Exteriores de Itamar Franco e queria se candidatar a deputado 
 O candidato de Itamar era Antonio Britto (PMDB-RS)
 LULA, BRIZOLA e Covas eram os candidatos de oposio
... em outubro de 1994
FHC, que deixou o Ministrio da Fazenda em maro embalado pelo Plano Real, foi eleito presidente no primeiro turno.

Em fevereiro de 1997...
 FHC era bem avaliado, mas a Constituio proibia a reeleio do presidente
 O governo tentava aprovar a emenda da reeleio, mas pensava em alternativas 
 LULA e Brizola selavam uma aliana para uma candidatura nica de oposio
 O ex-presidente Itamar Franco queria disputar novamente a Presidncia
... em outubro de 1998
A reeleio foi instituda e FHC ganhou novamente de Lula no primeiro turno.

Em fevereiro de 2001...
 LULA, com a ajuda do marqueteiro Duda Mendona, liderava as pesquisas, mas tinha alta rejeio
 JOS SERRA, Tasso Jereissati e Paulo Renato Souza brigavam para ser o candidato do PSDB
 A governadora Roseana Sarney (PFL-MA) ameaava a liderana de Lula
 CIRO GOMES e ANTHONY GAROTINHO tambm se apresentavam como candidatos de oposio
... e em outubro de 2002
LULA foi finalmente eleito presidente, derrotando Serra no segundo turno

Em fevereiro de 2005...
 LULA tinha problemas na conduo da economia, mas ainda no enfrentava uma crise tica
 GERALDO ALCKMIN e Jos Serra disputavam a vaga de candidato do PSDB
 Jos Dirceu era o chefe da Casa Civil de Lula
 HELOSA HELENA e CRISTOVAM BUARQUE eram senadores e no cogitavam disputar a eleio
... e em outubro de 2006
Lula, mesmo aps o mensalo, foi reeleito, derrotando Alckmin, Helosa (PSOL) e Cristovam (PDT)

Em fevereiro de 2009...
 Lula era um presidente popular, mas sem um candidato natural  sua sucesso
 DILMA ROUSSEFF era testada como candidata, mas o PT ainda sonhava com um terceiro mandato para Lula
 JOS SERRA e Acio Neves queriam ser candidatos pelo PSDB
 MARINA SILVA ainda era senadora pelo PT
... e em outubro de 2010
Dilma foi eleita presidente no segundo turno, derrotando Serra e Marina (PV).


3. 2005, O ANO QUE NO EXISTIU
O PT celebra seus dez anos de poder assumindo para si as conquistas sedimentadas em governos anteriores e suprimindo qualquer referncia ao escndalo do mensalo.

Nos no herdamos nada, ns construmos", discursou a presidente Dilma Rousseff, no palanque da festa organizada pelo PT, em So Paulo, para celebrar os dez anos do partido no poder. Foi o "decnio que mudou o Brasil", o "decnio glorioso", nas palavras da cartilha propagandstica distribuda no evento, trazendo o balano dos avanos econmicos e sociais obtidos nos anos petistas. Na figura de presidente da Repblica, Dilma soube ser magnnima. Em 2011, em carta enviada ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que completava 80 anos, ela afirmou que o tucano foi "o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidao da estabilidade econmica" e "essencial para a consolidao da democracia brasileira". No palanque de candidata  reeleio. Dilma fez ecoar o discurso de seus partidrios: antes do PT, eram o caos e o abismo.
     O PT atribui a si conquistas para as quais seu governo pouco contribuiu (veja o quadro ao lado), num tpico embaralhamento entre causas e consequncias.  O grande feito econmico dos petistas foi preservar a essncia da poltica econmica herdada por eles. Na verdade, na conduo da economia o PT sempre foi mais bem-sucedido quando se manteve longe de suas antigas ideias.  inegvel o avano do pas em inmeras reas desde 2003, entre elas a reduo contnua da desigualdade e o aumento na renda dos mais pobres. Mas, em seu discurso no palco da celebrao petista, o prprio ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva confidenciou, inadvertidamente, que precisou assumir uma rota diferente da original para comandar o pas. "Passei dez dias sem querer aceitar a carta, porque tinha de mudar parte da minha histria", afirmou Lula, ao se referir  histrica Carta ao Povo Brasileiro, documento apresentado durante a campanha eleitoral de 2002 no qual o PT assumia, caso sasse vitorioso, o compromisso de manter os fundamentos econmicos do pas, como a estabilidade dos preos, o equilbrio fiscal e o respeito aos contratos. O PT construiu a partir daquilo que herdara, colheu os resultados e ganhou as duas eleies seguintes.
     Na economia, o PT acertou ao negar os seus princpios anteriores. Na poltica, deu-se o inverso. "No exerccio do governo, o PT passou a compor amplas alianas polticas e sem critrio", afirma o historiador Marco Antonio Villa. "A tica foi jogada na lata do lixo para priorizar o projeto de assumir o governo e se manter no poder por um longo perodo. O PT percebeu que isso era possvel estabelecendo alianas com velhos coronis da poltica e entregando a eles parcelas do aparelho de estado", completa Villa. O partido que se vendia como a ltima vestal na poltica brasileira criou o mensalo, o maior caso de corrupo da histria brasileira. "O PT inovou na corrupo", afirma o socilogo Demtrio Magnoli. "Antes da chegada do partido ao poder, a corrupo era uma operao fragmentria, no obedecia a um comando central. Com ele aparece uma quadrilha organizada dentro do partido e dentro do governo. Outra novidade  que, com o mensalo, se procura legitimar o ato de desvio de recursos pblicos em nome do progresso do pas, pois  realizado pelo partido que encarna essa ideia." Sem um pingo de autocrtica, os petistas ignoraram completamente o mensalo nas comemoraes da semana passada. No palanque da festa em So Paulo, Lula discursava que o partido "no tem medo de comparao, inclusive comparao em debate sobre corrupo". Na plateia, a atestar o destemor dos petistas diante da Justia e da opinio
pblica, os recm-condenados Jos Dirceu (ex-ministro da Casa Civil), Joo Paulo  Cunha (ex-presidente da Cmara) e Jos Genoino (ex-presidente do PT) circulavam pela festa, sempre assediados pela militncia. O desejo de reescrever a histria ficou explcito em um mural colocado no Senado, celebrando o decnio petista. O ano de 2005, quando foi revelado o mensalo, foi simplesmente suprimido. Compreende-se a nsia de sublimar aquele ano  a cada novo depoimento, a cada nova prova, ficava mais ntida a dimenso do maior escndalo de corrupo da histria do Brasil. No fim do ano passado, o Supremo Tribunal Federal condenou 25 envolvidos e selou o veredicto definitivo sobre o mensalo. Para os petistas, 2005  mesmo um ano para esquecer. Mas os brasileiros no se olvidam.

A PROPAGANDA E A REALIDADE
Em uma cartilha com o balano econmico e social nos seus dez anos de poder,
o PT escamoteia dados e se apodera de avanos para os quais pouco contribuiu.

CRESCIMENTO
O que diz o PT: Na contracorrente dos governos neoliberais, emergiu o projeto desenvolvimentista que desde 2003 ousou inverter as prioridades at ento perseguidas. A elevao do poder de compra do salrio mnimo se mostrou favorvel  ativao econmica"
A realidade: Entre 2003 e 2012, o crescimento mdio anual do PIB brasileiro foi de 3,6%  superior ao da dcada passada, mas aqum da mdia mundial no perodo (3,8%) e ainda pior em relao ao obtido pelos pases emergentes (6,6%) no mesmo decnio

EMPREGO
O que diz o PT: No perodo desenvolvimentista, o Brasil acumulou o saldo de 18,5 milhes de novos postos formais de trabalho, contra apenas 5 milhes no governo neoliberal
A realidade: Houve um avano inquestionvel. A taxa de desemprego recuou de 10,5% para 4,6%. Parte dos bons resultados  mrito do PT, que preservou a essncia da poltica econmica do governo anterior, mantendo a estabilidade monetria e atraindo investimentos. Outra parte  mero reflexo da conjuntura externa favorvel,impulsionada pela emergncia da China

POBREZA E DESIGUALDADE
O que diz o PT: O Brasil se transformou em uma referncia global a ser seguida. Com a retomada do planejamento, o crescimento da economia foi estruturado em um conjunto de polticas pblicas de redistribuio de renda, como o Bolsa Famlia
A realidade: A queda na desigualdade teve incio aps a estabilizao monetria, a partir do real, em 1994. As polticas do PT, como a expanso do Bolsa Famlia e o aumento do salrio mnimo, contriburam, mas o principal vetor da queda na pobreza foi o aumento no nmero de empregos criados

INFLAO
O que diz o PT: Sem o crescimento da produo e com a paralisia da produtividade, o custo de vida da populao aumentou mais de 100% no acumulado durante a estabilidade monetria consagrada pelos governos neoliberais, uma variao mdia anual de 9,1%
A realidade: O decnio petista foi um dos perodos de menor inflao no pas, com mdia anual de 5,8%. O bom resultado se deve a dois fatores anteriormente condenados pelo PT: a autonomia do Banco Central e o regime de cmbio flexvel, sistema capaz de absorver choques. Recentemente, o governo fragilizou esses pilares  e a inflao subiu

PRIVATIZAES
O que diz o PT: Por meio de privatizaes sem critrios e decncia administrativa, cerca de meio milho de trabalhadores foram demitidos, sem a contrapartida de novos investimentos necessrios  retomada do crescimento sustentado
A realidade: No h comprovao do nmero de demitidos. A Vale multiplicou por seis o nmero de funcionrios e por dez os investimentos. A Embraer  a principal exportadora de alta tecnologia. Existem mais celulares do que pessoas no pas. O   prprio governo petista cedeu, embora tardiamente,  privatizao, transferindo para gestores privados a administrao de aeroportos e estradas


4.  ESPERA DA PUNIO
Dois meses depois do julgamento, o presidente do Supremo pede aos ministros que lhe encaminhem o voto revisado para que ele possa finalmente encerrar o processo e decretar a priso dos mensaleiros.
DANIEL PEREIRA E HOGO MARQUES

     Os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski atuaram em trincheiras opostas no julgamento dos principais pontos do processo do mensalo,  numa dicotomia que transcendeu  e muito  o contraponto esperado entre o relator e o revisor. Barbosa acolheu a tese da acusao e afirmou que o PT montou, no primeiro mandato do ex-presidente Lula, um esquema de compra de votos no Congresso custeado com recursos desviados dos cofres pblicos. J Lewandowski, ecoando a defesa, alegou que essa denncia no foi comprovada nos autos. Barbosa condenou  cadeia a antiga cpula petista, enquanto Lewandowski votou pela absolvio de Jos Dirceu e Jos Genoino, ex-presidentes do partido. Barbosa tambm defendeu a cassao imediata dos deputados condenados, prevalecendo, como nos casos anteriores,  recomendao de Lewandowski para que a ltima palavra sobre a perda dos mandatos fosse dada pela Cmara dos Deputados. Superada a parte principal do maior julgamento da histria do Supremo Tribunal Federal (STF), o duelo se repete agora na definio do prazo para o cumprimento da sentena. Barbosa espera execut-la, o mais tardar, at julho. Lewandowski aposta em novembro ou dezembro.
     Em 2012, o STF gastou 53 sesses plenrias e 138 dias para condenar 25 dos 38 rus do mensalo. Somadas, as penas chegam a quase 270 anos de priso, e as multas, a 22 milhes de reais. Tais sanes s sero aplicadas depois de vencidas duas etapas derradeiras do processo. A primeira  a publicao do acrdo. A segunda, a anlise dos recursos que sero apresentados pelos advogados de defesa. Presidente do Supremo, Barbosa j pediu pelo menos duas vezes aos ministros que liberem rapidamente seus votos revisados, o que permitir a divulgao do acrdo. Na semana passada, o pedido constou de um ofcio encaminhado formalmente aos colegas. No incio do ms. Barbosa fez o mesmo apelo numa conversa informal entabulada pouco antes do incio de uma sesso plenria. O prazo para a publicao do acrdo, segundo o regimento, acaba em 1 de abril, mas Barbosa quer ganhar tempo. Se dependesse s dele, o texto seria publicado ainda neste ms. O problema  que apenas trs ministros liberaram os votos: Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, j aposentados, e Gilmar Mendes. Luiz Fux, Celso de Mello e Marco Aurlio Mello prometem fazer o mesmo at meados de maro. Os outros ainda no se pronunciaram.
     Depois de publicado o acrdo, os rus tm cinco dias para recorrer da deciso. No h limite de tempo para o julgamento dos chamados embargos. Por isso, apesar de tais recursos raramente resultarem na extino das penas impostas, o fim do processo depende do empenho dos prprios ministros. Jogar com o tempo, prorrogando a tomada de decises, foi uma estratgia urdida pelo prprio Lula quando era travada a discusso sobre a data do incio do julgamento do mensalo. O petista queria que o caso ficasse para 2013. Falou isso diretamente a ministros, mas no conseguiu convencer a maioria deles. O fato de o revisor prever o desfecho apenas em novembro ou dezembro alimenta especulaes nada edificantes.
     Essa disputa pelo controle do andamento do processo interessa principalmente aos deputados condenados: Jos Genoino e Joo Paulo Cunha, do PT, alm de Valdemar Costa Neto (PR) e Pedro Henry (PP). Se prevalecer o prazo idealizado por Barbosa, eles podero perder os mandatos ainda neste ano. Caso o ritmo imaginado por Lewandowski se imponha, a cassao ficar, na melhor das hipteses, para o prximo ano. Como em 2014 haver eleies gerais e os parlamentares praticamente no daro expediente em Braslia, na Cmara h at quem aposte que os mensaleiros conseguiro concluir o mandato.  justamente isso que Barbosa quer evitar, sob pena de desmoralizar a Justia e tornar manca uma sentena histrica do STF.


